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sábado, 31 de março de 2012

O surgimento da análise cinematográfica na América Latina



Lauro Zavala 
Presidente de Sepancine 

  ¿Quais recursos formais e estruturais produzem o efeito emocional que experimenta o espectador ao ver um filme? ¿Qual é a natureza estética do cinema? ¿O que distingue uma narração audiovisual de uma literária? ¿Qual utilidade social têm a alfabetização audiovisual desde a educação básica? ¿Como utilizar os recursos audiovisuais para apoiar o ensino de qualquer disciplina universitária? 
 
Estas e muitas outras perguntas similares podem ser respondidas ao se estudar a linguagem cinematográfica. A disciplina que estuda este linguagem é a teoria do cinema. E ainda que em todos os países da América Latina exista uma importante tradição de crítica cinematográfica (que é uma forma especializada de jornalismo), sem dúvida ainda não existe nenhum programa de pós-graduação dedicado à formação de pesquisadores em teoria e análise cinematográfica (que não deve confundir-se com a crítica de cinema)[i]. Estes programas de pós-graduação seriam similares aos de outras disciplinas humanísticas (em literatura, filosofia, musica ou arquitetura), e seu objetivo não seria formar diretores, roteiristas ou críticos, senão pesquisadores da linguagem cinematográfica. 

Ao mesmo tempo, na região latino-americana existem numerosas escolas de cinema. No México destaca-se o CCC (Centro de Capacitação Cinematográfica), que desde 2011 outorga o grau de licenciatura, e o CUEC (Centro Universitário de Estudos Cinematográficos). Este último pertence a prestigiosa UNAM (Universidade Nacional Autônoma de México) e neste 2012 completa 50 anos, o qual será celebrado ao outorgar o grau de licenciatura a seus egressos (com o qual deixará de ser um Centro para adquirir o estatuto de uma Escola). Ainda que estas escolas não estejam orientadas a formação de pesquisadores, senão de diretores e roteiristas, temos a impressão que em eum futuro próximo a UNAM tomará a iniciativa de criar o primeiro programa de pós-graduação em análises cinematográfico na América Latina.

Em contraste, a Associação de Estudos sobre Cine e Meios (SCMS), nos Estados Unidos, conta com mais de 5,000 investigadores em teoria e análise cinematográfica, e realiza cada ano um congresso ao que frequentam mais de 1,500 estudiosos, os quais publicam pouco mais de 500 livros especializados anualmente. Na Espanha, além de contar com numerosos programas de pós graduação, foram publicados já mais de 50 títulos da série Ver e Analisar Filmes, dedicados a análise de películas do cânion cinematográfico, como uma iniciativa surgida na Universidade de Valencia. 

 Frente a esta situação, nos últimos 3 anos tem surgido várias redes de pesquisadores de teoria e análise cinematográfico na Argentina, Colômbia e México, os quais por sua vez tem organizado seminários de discussão e congressos de investigadores. Deste trabalho colegiado tem se derivado a realização de cursos em todos os níveis, a criação de séries de televisão educativa, a produção de discos interativos de caráter didático e a publicação de livros coletivos. Um antecedente importante destas iniciativas é a existência no Brasil de uma Associação de pesquisadores de cinema (Socine), criada em 1994.

 Em 2009 foi criada a Associação Argentina de Estudos de Cinema e Audiovisual (Asaeca), que já organizou um par de congressos e publica periodicamente a revista especializada Imagofagia. Nesse mesmo ano se criou a Associação Mexicana de Teoria e Análise Cinematográfica (Sepancine, que toma seu nome do Seminário Permanente de Análise Cinematográfica), a qual organizou sete congressos e tem publicado vários livros coletivos e números monográficos de diversas revistas culturais e universitárias. Seu sítio (www.sepancine.mx) contêm livros completos de acesso gratuito, assim como cursos, artigos, bibliografias e muitos outros materiais para o ensino da análise.

Também em 2009 foi fundada na cidade de Morelia (no México) uma pós-graduação em Teoria e Crítica de Cinema, de caráter privado. Em 2010 foi criada a Redic (Rede de Investigadores de Cine) com sede na Universidade de Guadalajara, que reúne um grupo de pesquisadores da Argentina, Espanha, Estados Unidos, França e México. E em 2011 se criou na Argentina uma Rede Universitária Latino-americana de Artes, orientada aos estudos cinematográficos.
 Em 2010 foi realizado em Bogotá um Encontro Latino-americano de Pesquisadores de Cinema, orientado ao estudo da epistemologia da investigação cinematográfica. As atas deste congresso estão por aparecer neste 2012. Esta iniciativa é muito notável porque além de ter surgido no Instituto de Pesquisas Estéticas da Universidade Nacional da Colômbia, também conta com o apoio logístico do Departamento de Cinematografia

 Por último, é necessário mencionar a realização em 2011 de dois congressos acadêmicos orientados a análise cinematográfica, com sede no México. Em Tijuana, O Colégio da Fronteira Norte (Colef) e a Universidade Autônoma da Baixa Califórnia (UABC) criaram o Facine (Fórum Internacional de Análise Cinematográfica). Mas sem dúvida, a iniciativa mais notável é a que surgiu na pós-graduação em História da Arte da Universidade Nacional Autônoma do México, onde os estudantes criaram um CUAC (Congresso Universitário de Análise Cinematográfica), além de uma revista digital de pequisas, Montajes, cujo primeiro número está em preparação.

Todas estas iniciativas levadas adiante por pesquisadores e estudantes de pós-graduação na Argentina, Brasil, Colômbia e México estão criando uma tradição na disciplina, estabelecendo assim um precedente acadêmico para a possível criação de um Instituto de Pesquisas em Teoria e Análise Cinematográfica e Audiovisual (IITACA) na região latino-americana. Sua criação poderia ser paralela a criação de acervos públicos de acesso gratuito (similares ao atual sistema público de bibliotecas), onde os espectadores poderiam conhecer o mais importante da produção cinematográfica da região e do resto do mundo.  



Tudo isso demonstra que também a cinefilia pode converter-se em uma profissão especializada, como já ocorre em outros campos da produção cultural.  

Livre Tradução: Grupo Nove

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mais pontes e ligações entre Nosotros...


Para além dos sombreros e dos chapéus de couro...
Argentina, Brasil e México são historicamente as cinematografias latino-americanas de maior visibilidade, por força da constituição de seus mercados e das políticas públicas que os organizaram. Embora a tríade tenha este peso, ela é muito pouco articulada entre si e tem se esquivado de estabelecer possíveis estratégias comuns de comunicação e integração. Uma interface efetiva e mais rigorosa entre seus componentes industriais e institucionais talvez pudesse intervir de modo positivo em suas dinâmicas de atuação, mas o resultado pífio das tentativas já feitas (caso do Mercosul e de suas agências para o cinema), não abre muitos caminhos para a esperança.
Sendo potências de criação e de formulação de ideias e tendo um diálogo intenso – para o bem e para o mal – com as sociedades de onde emanam, estas cinematografias têm sido um desafio para o pensamento acadêmico, observadas de uma prudente distância e consideradas como máquinas de produção de imaginário. Este motivo levou um grupo de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, que abriga há mais de quarenta anos um curso de cinema reconhecido nacionalmente por sua excelência, a criar a PRALA, uma plataforma de reflexão sobre o audiovisual latino-americano, destinada a se debruçar sobre questões afetas à produção de sentido pela via da imagem e do som. Como cartão de visita, o grupo acaba de lançar o livro Brasil-México: aproximações cinematográficas (Niterói: Eduff, 2011), em que se busca pontos de contato entre produções dos dois países, acrescidos de contribuições de autores mexicanos também da academia. Tentou-se fugir da armadilha da ênfase no cinema já legitimado historicamente para se ousar pensá-lo também em sua contemporaneidade. São 11 artigos (oito brasileiros e três mexicanos), que lidam com a história, a política, a estética e a cultura. Reflexões como a revisão da historiografia oficial sobre a Edad de Oro do México, na constituição de seu projeto de estado-nação e seu respectivo processo de industrialização ativado entre os anos 30 e 50, refletido nas comédias rancheras, nos melodramas e até mesmo nas emanações metafísicas de um Luis Bunuel. Um traço de modernidade sistematizado em três momentos em que se tematizou um “nacionalismo gritante’, definido por variados mecanismos retóricos e sólida estrutura empresarial.
Tempo de Emilio Fernandez, de Gabriel Figueiroa, Jorge Negrete, Pedro Armendáriz, Maria Félix, Dolores del Rio, Cantinflas e Tintán. Deste período vão ser analisados, por outros autores, outros aspectos marcantes, como o melodrama familiar, pontuando nele o lugar da sala de jantar, espaço do exercício da autoridade e da instância moralizante. Ou trazendo à tona as semelhanças entre os remakes brasileiro e mexicano de Sansão e Dalila, a celebração bíblica de Cecil B. de Mille e as paródias em que Oscarito e Tin Tan representavam o apagamento do corpo docilizado por Hollywood, trocando-o pelo pícaro gingado da rumba, da cúmbia e do samba. Reinvestiduras de sentido como o fazem também os fans de filmes de lutadores, os admiradores de Santo, El enmascarado de plata, cujo prestígio sobrevive ao fim da época de ouro e gera, no passado recente, as premissas estéticas de vídeos disponibilizados na internet. Do mesmo modo como os fans brasileiros vão re-encenar o mitológico Guerra na estrelas com levada própria, deixando entrever a existência de um fan cinema latino-americano. Na perspectiva comparativa entre as duas cinematografias, vamos ter ainda um estudo sobre La Zona e Tropa de elite, sob a ótica do thriller social contemporâneo e na tecla do brutalismo e da lógica do confronto presente nos territórios de exceção apontados pelos filmes. Assim como vamos ver o modo como o cinema de ficção representa o Exército Zapatista de Libertação Nacional, do lado de lá, e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, do lado de cá e seu quase apagamento nessas dramaturgias potentes, para as quais não existe mais a sombra da interdição temática, por injunções políticas, mas que não ousam se debruçar sobre aspectos menos “espetaculares” da realidade social. Perspectiva que pode ser adotada em obras ou autores singulares, como é o caso do olhar lançado sobre o trabalho infantil pela ótica do documentário, enriquecendo uma rica tradição de militância e engajamento por uma radical mudança social. Herdeiro de um cinema direto, marcado por uma notável acuidade formal, o filme analisado se ombreia à vertente ficcional, em outras duas produções aqui demarcadas pela sua gestação durante o governo de Vicente Fox (2000/2006) e que vão lidar também com o tema da pobreza e da desigualdade social e o desencanto provocado pelos tropeços da transição à democracia, problemática herdada da preponderância do PRI mantida durante mais de setenta anos. Esta mudança de tom vai se refletir no modo de operar de um grupo de jovens realizadores que assume a cena cinematográfica, nos anos 1990, apresentando seus filmes de estreia e reconquistando uma parcela expressiva de seu público, pelo cuidado com a linguagem e pela incorporação de novos temas e formatos. Uma inquietação que já mantinha o viço da produção de autores consagrados, dos quais o livro ainda oferece bons exemplos de leitura, pontuando a perspectiva do caminho analítico empreendido pelo grupo, ao situar seus limites entre o vanguardista Jodorowsky e o pós-moderno Del Toro.
O esforço empreendido pela PRALA se revela promissor, pela mirada fora do ambiente já sacralizado do cinema hegemônico e seus “satélites estelares” e pelo mergulho na inquietação da descoberta de pontos de contato culturais entre os dois países, buscados em ricas tradições e na não menos importante intransigência contra as imposições coloniais, das quais o cinema é vertente das mais sedutoras.



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Antonio Carlos (Tunico) Amancio
Professor do Curso de cinema da UFF desde 1980. Pesquisador, roteirista e cineclubista, ele comete de vez em quando um curta metragem para não perder o pé do mundo real. Estudou no mestrado a Embrafilme, sua tese virou filme (O olhar estrangeiro), e junto com Marina Tedesco Cavalcanti organizou a coletânea "Brasil-México: aproximações cinematográficas".

Livro compara os cinemas do Brasil e do México

As relações entre o cinema brasileiro e o mexicano em pauta
As relações entre o cinema brasileiro e o mexicano em pauta
Estudos comparados sobre cinema latino-americano são raros, especialmente no Brasil. Mas acaba de ser lançada por aqui uma compilação de artigos que tece relações entre o cinema brasileiro e o mexicano – dois dos maiores representantes do que seria uma indústria cinematográfica latino-americana.
Publicado pela editora da Universidade Federal Fluminense, o livro “Brasil – México: Aproximações cinematográficas” (207 páginas; a 28 reais) traz os estudos desenvolvidos na disciplina “Cinema latino-americano”, ministrada no curso de cinema e audiovisual da universidade. São 11 os autores dos textos, todos pesquisadores de cinema latino. Entre eles, estão Tunico Amancio, acadêmico formado pela Universidade de São Paulo, e Marina Cavalcanti Tedesco, cineasta e professora da UFF, também organizadores da publicação.
A primeira parte do livro fala de coincidências e diferenças de ambas produções audiovisuais. Já na segunda parte, surgem reflexões sobre história do cinema mexicano, além de gêneros narrativos, transformações temáticas ao longo do tempo e estudos de realizadores e filmes.
O lançamento de “Brasil – México: Aproximações cinematográficas” acontece no marco do lançamento da PRALA (Plataforma de Reflexão sobre o Audiovisual Latino-Americano), fundada em agosto de 2010 e coordenada pelo professor Fabián Nuñez, da UFF. A finalidade é incentivar, promover, coordenar e realizar ações de caráter interdisciplinar que estimulem a reflexão em torno da produção audiovisual da América Latina.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Barricadas, Cinema e Revolução:

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) através dos Filmes.






Gritos de No Pasarán! ecoavam pelas ruas da Espanha republicana, em meio a coletividades operárias que em suas barricadas empunhavam armas para combater o golpe de estado fascista, situação esta, que redundaria um extenso conflito entre os anos de 1936 e 1939. Reportando-se à Guerra Civil Espanhola (na qual lutou), o escritor inglês George Orwell pontuou: "a espinha dorsal da resistência a Franco foi a classe operária espanhola, especialmente os membros dos sindicatos urbanos" (Recordando a Guerra Espanhola, Lisboa: Antígona, 1984. p.37). Entre estes podemos destacar a atuação dos anarquistas e suas respectivas organizações sindicais: CNT (Confederación Nacional del Trabajo) e FAI (Federación Anarquista Ibérica), que através de diversas práticas libertárias levadas a cabo no transcurso da guerra civil, tais como a coletivização de terras, possibilitaram um "curto verão da anarquia".

A Guerra Civil Espanhola acendia os desejos de Revolução Social entre segmentos das classes operárias. E nesta senda, os anarquistas, encontravam no cinema uma importante ferramenta de propaganda e ação. Um exemplo é o filme Un Pueblo en Armas (Espanha, 1937), documentário dirigido por Juan Pallejá e Louis Frank, e produzido em 1937 em meio a Guerra Civil Espanhola, pelo S.I.E. film (Sindicato de la Industria del Espectáculo, de Barcelona, ligada a CNT), destinado a ser exibido no circuito internacional, sobretudo nos EUA, com o objetivo de angariar apoio a causa antifascista. Além disso, a CNT socializou a indústria do cinema na Espanha (nominada de industria del espectáculo), possibilitando a autogestão deste setor pelos trabalhadores, numa iniciativa inédita de produções coletivas em que a hierarquia dos papéis tradicionais atrelados ao processo de produção cinematográfica foram revistos. Por sua vez, investindo em diversos gêneros (dramas, comédias, documentários) impulsionaram a produção de uma gama diversa de filmes, entre os quais o já referido Un Pueblo en Armas. Situações estas que moveram a realização em 2010 do documentário El Cine Libertario: cuando las películas hacen historia, dirigido por José María Almela e Veronica Vigil.  


Passado de lutas este, que após décadas ganhava através do cinema forma vívida. Como demonstra a produção cinematográfica de José Luis Cuerda, ambientada no cenário espanhol pré-guerra civil, intitulada A Língua das Mariposas (La Lengua de las Mariposas, 1999), que nos traz um professor e sua prática libertária. Por sua vez, outras produções merecem destaque, tais como: Libertárias (Libertarias, 1996) de Vicente Aranda, que aborda a atuação anarquista (focado na organização anarco-feminista Mujeres Libres) nas frentes antifascistas; Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995) de Ken Loach, centrado na participação revolucionária do P.O.U.M. (Partido Obrero de Unificación Marxista), e que se baseia na experiência do escritor George Orwell, que compôs as brigadas internacionais; Soldados de Salamina (2003) de David Trueba, que se reporta aos últimos dias da Guerra Civil Espanhola (inspirado na obra homônima de Javier Carcas); Ay, Carmela! (1990) de Carlos Saura que narra a jornada de uma Cia de teatro aprisionada pelas tropas franquistas; e O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006) de Guillermo del Toro que partindo do imaginário infantil (da personagem Ofélia), nos leva a uma viagem a Espanha dos anos 40, evidenciando grupos de milicianos antifascistas que após o fim da guerra civil, se mantiveram embrenhados nas montanhas levando a diante a resistência contra a ditadura de Franco. 

Cena do filme Libertárias




Também nos anos 90 Juan Gamero levou as telas o documentário Vivir la Utopia (1997), tratando das experiências anarco-sindicalistas e anarco-comunistas realizadas durante a Guerra Civil Espanhola, e reavivadas através dos relatos de militantes libertários sobreviventes do conflito. 

E se por um lado à revolução pelas armas fracassou, por outro a história daqueles que acreditaram um dia poder mudar o mundo, ainda gravita, quer seja através de uma tela de cinema ou em utopias do dia-a-dia, pois a vida urge...
Cleber Rudy
Historiador e cinéfilo
*Agradeço ao companheiro Juliano Gonçalves da Silva pelas contribuições.








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quarta-feira, 28 de março de 2012

Cartier-Bresson, fotógrafo e anarquista


O anarquismo é, acima de tudo, uma ética e, como tal, mantêm-se intacta. O mundo mudou, mas não o conceito libertário, o desafio frente todos os poderes. Com isso, conseguiu se liberar do falso problema da celebridade. Ser um fotógrafo conhecido é uma forma de poder e eu não o desejo (Henri Cartier-Bresson, 1998).
Alguém disse algo parecido como onde tivermos que lutar por dignidade, haveria um anarquista. Esta reflexão do grande fotógrafo francês, libertário até o fim de sua longa e lúcida vida, é um exemplo. Cartier-Bresson esteve na Espanha durante a República, e voltaria várias vezes, identificando-se com os anarquistas espanhóis e reivindicando a anarquia como um sentido ético para a vida. Nunca abandonou seu compromisso social em sua turnê pela Europa, Ásia, África e América Latina, deixando para a posteridade numerosos momentos históricos e retratos de personagens, graças à sua Leica e sua objetiva de 50 mm. Não é tão conhecido por seu trabalho para o cinema, durante a década de 30, com Paul Strand nos Estados Unidos e com Jean Renoir na França. Sua primeira vocação, no entanto, seria a pintura e o desenho, considerando o surrealismo como uma forma subversiva que casava bem com suas ideias libertárias. É início dos anos 30 quando se fascina pela fotografia, mas nunca abandonaria sua “paixão privada” pelo surrealismo e seu amor pelo desenho, dedicando seus últimos anos para este lado e deixando muitos nus femininos feitos em carvão (curiosamente, este interesse artístico é muito diferente de sua fotografia). De fato, tinha um grande interesse em fotografia a pintores como Matisse - com quem teve uma grande amizade - Braque, Giacometti, Bonnard, Bacon e muitos outros.
Cartier-Bresson se tornou anarquista muito jovem, ao descobrir mundos diferentes ao das civilizações judaico-cristãs e muçulmanas. Diante da inanidade presente em um mundo onde a tecnologia permite uma corrida contínua de imagens, reivindicou sempre a sensibilidade do olho do artista. Curiosamente, e apesar de considerado um dos pais do fotojornalismo e de possuir um inegável compromisso com o social, se distância da obra de outro grande fotógrafo como Sebastião Salgado. Cartier-Bresson acreditava que o trabalho de Salgado não foi concebido pelo olho de um pintor, mas pelo de um sociólogo, economista e ativista; apesar de respeitar muito o seu trabalho, acreditava que o brasileiro colocava um “aspecto messiânico” que a ele mesmo era estranho. Em uma ocasião, rejeitou o trabalho documental e jornalístico, pois considerava “extremamente chato”, algo que o próprio Robert Capa o repreendeu, aconselhando-o a se afastar de suas origens surrealistas, coisa que Cartier-Bresson parece ter feito apenas publicamente. Em qualquer caso, parece que o fotógrafo francês nunca se considerou um repórter e reivindicou sempre sua subjetividade artística: “Quando vou a algum lugar, tento fazer uma foto que resuma uma situação que encante, que atraia o olhar e tenha um bom relacionamento de formas, que para mim é essencial. Um prazer visual”. Pode se dizer que o fotojornalismo, considerado como mera acumulação e registros de fatos, é para Cartier-Bresson o caminho para lugar nenhum;  a coisa verdadeiramente interessante é o ponto de vista a ser tomado sobre esses fatos, e a fotografia deve ser considerada como um re-evocação desses eventos. Além disso, não mais trabalhava para agências de publicidade, já que se manteve firme em sua crítica à sociedade de consumo desenvolvida desde a década de 60 do século XX. Sempre manteve até o fim sua rebeldia e encontrou mais motivos para alimentá-la com o surgimento da tecno-ciência, que ele considerava um verdadeiro monstro, e com a falácia do “conflito de gerações”; Cartier-Bresson reivindicava uma humanidade unida pela solidariedade, valor fundamental com o qual se encontrou uma e outra vez durante toda a sua turbulenta e longa vida, independentemente da sua idade ou condição.
Vejamos as palavras do próprio Cartier-Bresson sobre a atividade fotográfica: “Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo em uma fração de segundo do significado de um evento e a organização das formas que lhe dão seu próprio caráter”. O ser humano deve encontrar um equilíbrio entre sua vida interior e o mundo ao seu redor, buscando a influência recíproca e até mesmo considerar, finalmente, o resultado de um único mundo que reúne subjetividade e objetividade. Como visto, o fotógrafo francês rejeitava o sucesso e até mesmo o reconhecimento, mas queria transmitir algo às pessoas e saber, ao mesmo tempo, que era bem recebido.
Capi Vidal
Fonte: Tierra y Libertad – março de 2012, Espanha









No colo da mãe,
Sem soltar o cata-vento,
Dorme a menina.

sábado, 24 de março de 2012

Diversidade & Cinema


diversité / diversità / vielfalt / diverseco / diversitas / różnorodność / rozmanitost / ποικιλία / разнообразие / 多樣 / 多様性 / تنوع / גיוון / Đa dạng

Primeiro certame cinematográfico que enfoca em seus conteúdos o resgate do cinema e audiovisual enfocando o tema da diversidade em todos seus contextos (diversidade social, urbana, de gênero, cultural, entre outras) na sociedade atual.

Primer certamen cinematográfico que enfoca su contenido al rescate del cine y audiovisual enfocado al tema de la diversidad en todos sus contextos (diversidad social, urbana, de género, cultural, entre otras) en la sociedad actual.
Para la versión 2012 el festival de cine enfoca su programación y actividades a dos temáticas de diversidad: la diversidad de género y la diversidad cultural urbana. DIVA Film Festival cuenta en la presente versión con una competencia Iberoamericana de películas de ficción y documental enfocadas a las temáticas antes mencionadas y que competirán por los PREMIOS DIVA 2012.

Para a versão de 2012 o festival de cinema enfoca sua programação e atividade em duas tyemáticas da diversidade: a diversidade de gênero e a diversidade cultural urbana.  DIVA Film Festival conta na atual versão com uma competição Iberoamericana de filmes de ficção e documentários enfocados nas temáticas antes mencionadas e que competirão pelos PREMIOS DIVA 2012.


sexta-feira, 23 de março de 2012

Terror Branco, Daniel Schweizer, 2005



Filme “White Terror”
[Impressionante documentário suíço que mostra as inquietantes mudanças nos últimos anos dentro dos movimentos de extrema-direita na Europa.Imprescindível de assistir, discutir e difundir.]
Sinopse
Nos últimos cinco anos tem havido uma mudança significativa dentro do movimento de extrema-direita: os veteranos há anos que se aposentaram, estão muito velhos ou já morreram. Os novos ideólogos estão surgindo em toda a Europa e pulando para outros continentes. Não precisam necessariamente raspar a cabeça; criaram corporações, empresas de distribuição, clubes de música, revistas, editoras, sites na internet e substituíram as antigas simbologias por outras novas. No mundo globalizado em que vivemos, os propagadores do ódio encontraram na internet a ferramenta apropriada para avivar as ideias quase extintas e para espalhar seus ideários a países tão distintos como Estados Unidos, Suécia ou Rússia. A coisa mais surpreendente é que, para os seguidores mais jovens, todos os sofrimentos do passado são uma espécie de história virtual e irreal.
Ver o vídeo, legendas em castelhano:
Insetos que cantam...
Parece que as sombras se amam
nos cantos escuros.
Teruko Oda